sábado, 16 de dezembro de 2017

O Coreto da Lua

Suzo Bianco

Reviver aquilo, que nos aconteceu quando nos conhecemos, me traz um misto de nostalgia, melancolia e felicidade, mesmo depois de tantos anos.
Eu caminhava sem rumo por uma passarela de madeira suspensa, desses tipos de caminhos construídos sobre plantas e moitas, no intuito de sentir melhor o bosque sem formar trilhas. Era um lugar lindo e calmo, chamado Por da Lua, uma área grande de mata preservada bem no coração da cidade de Clinzândia, ao norte do Deserto Cinzento, lugar esse que quase ninguém ousava mencionar.
Por da Lua era um parque bastante procurado por todos devido sua essência mágica e qualidade calmante, sob as copas verdes, as pessoas se sentiam mais relaxadas, abrigadas, tranquilas para caminhar e caminhar sem rumo certo, aproveitando a atmosfera entorpecente a qualquer hora do dia.
Bom exemplo desse costume era eu mesmo, que mesmo sob o manto imperioso da noite e da luz fantasmagórica da soberana Lua, andava a passos lentos, fazendo ranger as ripas de madeira, pensando em nada demais, apenas uma sombra ambulante em meio aos focos de luz branca, derramados pelos postes que se dispunham de metros em metros, de cada lado da trilha. Foi quando avistei o Coreto da Lua.
Um lugar aconchegante e fresco, todo branco, muretas bem trabalhadas com ornamentos que, num padrão suave, lembravam folhas de árvores e animais silvestres. O telhado era bem cuidado, a tinta anil das telhas ainda parecia fresca, embora coberta por folhagem seca, plantas rasteiras e trepadeiras. Em seu cume, um cata-vento na forma de uma Lua prateada girava lentamente ao gosto da brisa noturna. E sob o telhado, lá embaixo, bancos curvos, moldados de forma que acompanhassem a curvatura do coreto, convidavam silenciosamente os possíveis transeuntes a algumas horas de meditação ou reflexão. E isso fazia todo sentido, já que, quando ali cheguei, percebi uma jovem de cabelos longos e escuros. Sentada, cabisbaixa, concentrada em um ponto invisível no meio do pequeno salão que o coreto disponibilizava, ela nem sequer notou quando me aproximei. Parecia triste, e associei aquela situação com a do homem que ia embora, por outra abertura, também de ombros caídos, quieto e aparentemente melancólico.
Possivelmente a moça sentia algum recente aperto no peito ou decepção amorosa.
Pensei em abordá-la com um cumprimento reconfortante quando ela de repente me notou, com olhos arregalados, fazendo-me estacar em meu lugar. E ali de pé, vi a jovem espiar mais uma vez o homem, que se distanciava por outra trilha suspensa do bosque, como se não acreditasse no que lhe estava acontecendo. Ela tornou a reparar em mim, como se eu fosse algum tipo de fantasma. Antes que ela pudesse dizer algo, arrisquei:
— Parece triste, posso lhe ajudar?
— Quem é você? – Ela logo perguntou.
— Ninguém, eu estava apenas caminhando quando a vi aqui e... Pareceu-me triste.
— Na verdade não. – Sorriu. – Não estou triste. Estava apenas pensando na loucura que acabou de me acontecer, quando você apareceu. E, sinceramente, isso só me deixou mais confusa ainda.
— Não entendi.
— O homem que acabou de sair daqui.
— O que tem ele, era seu namorado, ou algo assim?
— Não sei o que dizer, não agora, depois que você apareceu.
— Não compreendo.
— Era um senhor, um senhor de meia idade, gentil, mas de olhar tristonho. — Percebendo que eu ainda não a entendia, explicou: - Bem, eu estava aqui, lendo meu querido diário, quando ele apareceu, bem ali. — Apontou para a outra abertura do coreto. — Ficou me olhando como se me conhecesse há anos, olhos cristalizados de lágrimas. Fiquei um tanto desconsertada, assustada até, não sabia o que fazer ou o que falar quando ele me disse: “Sei que deve estar assustada, sei que não me reconhecerá, sei que deve me achar um mendigo louco ou algo assim, ou só um velho carente e esquisito, sei que provavelmente irá ignorar esse encontro daqui algumas horas, sei de tudo isso, mas ainda tenho esperança de realizar meu sonho, de lhe abraçar pela última vez e de me lembrar como eu poderia ter sido feliz, e desperdicei isso...” Então ele chorou abertamente, de maneira tão tocante que me apiedei e o abracei com toda a sinceridade que eu poderia oferecer. Ele então me afastou gentilmente, e disse: “podemos dançar?” Sorri, limpei minhas próprias lágrimas e dançamos por um tempo, como pai e filha que há muito tempo não se viam. Até que nos afastamos. Ele me olhou nos olhos. “Obrigado, e me perdoe, minha querida. Adeus!” – Sorriu a jovem ao lembrar daquilo. – Então ele simplesmente foi embora, quando você chegou.
— Nossa! — Falei, me aproximando. — Que estranho. — Tomei coragem e me sentei ao lado dela. Era linda. – Essa cidade é cheia de gente maluca.
— Tem razão! — Ela concordou, voltando a sorrir.
Nossos olhos brilharam naquele momento; os dela eu pude ver, os meus eu mesmo os senti.
Naquele dia nunca poderia imaginar que aquela jovem se tornaria a minha companheira, amada de uma vida inteira.
Tivemos muitas coisas juntas depois daquilo; alegrias, viagens, lembranças, tristezas e arrependimentos. Eu mesmo, hoje, reconheço o quanto a fiz mal. Pois com o tempo a paixão diminuiu, e isso me distraiu. Tornei-me negligente, arrogante, iludido e idiota. Ela, coitada, acompanhou minha áurea tornando-se tão tola quanto eu. Começamos a brigar demais, a discutir demais, a querer sem merecer demais, até que num dia fatídico, minha tão amada companheira veio a falecer num acidente de balão.
Ela só queria ver a Lua mais de perto, para ver os problemas mais de longe.
Aquilo viria a me recuperar do modo mais doloroso possível. Passei desesperadamente a procurar uma forma de reverter àquela situação, a da morte de alguém que eu não soube aproveitar, amar, enquanto viva.
Procurei tanto que acabei achando.
Uma bruxa, oriunda das cavernas do Deserto Cinzento, ficara sabendo de minha agonia e me propôs um acordo:
— Se o senhor me der sua vida, posso fazer com que você a veja mais uma vez, e assim, além de revê-la, poderá finalmente descansar em paz...
E inundado de tristeza, movido pela dor da perda e do amor perdido, aceitei o acordo.
Fui levado para o passado, e a revi.
Linda, sozinha, minutos antes de me conhecer, sob aquele lindo coreto mágico. O primeiro contato quase me fez gritar de dor e saudade saciada. Mas não podia. Enchi-me de coragem, aproximei-me e lhe disse:
— Sei que deve estar assustada, sei que não me reconhecerá, sei que deve me achar um mendigo louco ou algo assim, ou só um velho carente e esquisito, sei que provavelmente irá ignorar esse encontro daqui algumas horas, sei de tudo isso, mas ainda tenho esperança de realizar meu sonho, de lhe abraçar pela última vez e de me lembrar como eu poderia ter sido feliz e desperdicei isso.
Então desabei abertamente, de maneira tão tocante que me senti uma criança arrependida por ter feito algum mal imperdoável.
Ela me abraçou, com força. Eu a afastei gentilmente, falando:
— Nós podemos dançar?
Ela sorriu, limpou suas próprias lágrimas, e dançamos por um bom tempo, até que nos afastamos. Eu a amava, imensamente, e sem poder me revelar só pude olhá-la nos olhos:
— Obrigado, — Suspirei controlando meus sentimentos que pareciam querer-me afogar. — E me perdoe, minha querida. — Me virei de vez, para evitar novo pranto aberto. Apenas conseguindo murmurar minha última palavra, aquela que há anos não pude ter dito:
— Adeus!
E agora, mesmo prestes a doar minha vida para aquela bruxa, reviver aquilo, que nos aconteceu quando nos conhecemos, me traz um misto de nostalgia, melancolia e felicidade, mesmo depois de tantos anos.

Autor: Suzo Bianco - São Paulo/SP

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Lampião no oratório (e santificado) - Autor: Rangel Alves da Costa


Rangel Alves da Costa

Quando Padre Gerômio chegou ao batente da Velha Titoca carregando Bíblia, um frasco de água benta, uma cruz de madeira e vários outros apetrechos de exorcização, ouviu da dona da casa que se desse um passo adiante ela tacaria o cabo de vassoura nas fuças.

O sacerdote recuou indignado, escandalizado com a reação da mulher diante de um representante divino na terra. E ele que estava em missão das mais importantes, pois havia chegado aos seus ouvidos, em segredo na sacristia, que a velha senhora mantinha no oratório, ao lado de figuras sacras, uma imagem feita de barro de Lampião.

Esse mesmo, Lampião, batizado Virgulino Ferreira da Silva, mas também conhecido por Lampião, Capitão, Rei do Cangaço e muitas outras portentosas alcunhas. Mas um bandido, um verme sanguinário, um bandoleiro cruel, na concepção do Padre Gerômio. Por isso mesmo que estava ali para expulsar esse cangaceiro da companhia dos outros santos. E quem já viu Lampíão ser devotado, santificado, adorado, mantido fervorosamente num oratório?

Do lado de fora, sob a ameaça da vassoura da velha, tentou argumentar a todo custo, afirmando ser uma heresia, um pecado descomunal o que ela havia feito ao colocar um bandido ao lado de santos, até da imagem do Nosso Senhor Jesus Cristo. Se benzendo a todo instante, ainda disse que ou ela o deixava limpar o oratório daquela coisa ruim ou seria impiedosamente excomungada.

E disse mais que até aceitava, por força da religiosidade e misticismo do povo sertanejo, que houvesse devoção ao Padre Cícero Romão Batista e ao Frei Damião, forçadamente reconhecidos como santos por aquele povo, porém era contra todos os princípios da igreja pretender santificar um cangaceiro, um homem que tanta tristeza havia trazido para toda a região nordestina.

Sinhá Titoca baixou a vassoura, mas não sem antes cuspir no chão logo embaixo, afirmando que se passasse dali, se desse ao menos um passo adiante, poderia ser considerado um padre descadeirado, sem poder rezar missa mais nunca. O padre tentou levantar a cruz, porém ela mandou baixar na hora, tirando de dentro do bolso uma pequena Bíblia e dizendo que ali estava escrito o porquê de Lampião ter todo o direito de estar e permanecer dentro do seu oratório.

Mas antes de entrar nas explicações bíblicas, disse que não cabia a nenhum padre ou pastor dizer quem ela deveria devotar ou não. A sua fé e a sua religião competiam somente a ela, que tinha como santo e acreditava somente em quem ela queria. E foi logo dizendo que a história de Lampião não era muito diferente de um monte de homens que foram pecadores, guerreiros, ladrões, tiranos, mas que com o tempo a igreja foi reconhecendo alguns dos seus méritos e santificando-os como verdadeiros mártires.

Em seguida perguntou se Lampião só havia praticado crueldade na vida, se era essa monstruosidade toda que os ignorantes diziam, se era um homem sem fé, sem religião e entregue somente ao mundo do pecado. Pelo que sabia, era um homem normal, como todos os santos da igreja, que um dia foi batizado, era apegado demais às coisas divinas, devoto de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Virgem Maria, temente a Deus acima de tudo, e que sempre rezava fervorosamente ao anoitecer e amanhecer.

E levantando a Bíblia disse que o padre deveria ler melhor suas entrelinhas, os verdadeiros fundamentos de suas palavras. E isto porque estava escrito em Eclesiástico 13,4: “O rico comete uma injustiça e em seguida se põe a gritar; o pobre, ofendido, guarda silêncio”. E Deus queria que Lampião deixasse toda aquela opressão sem resposta, sem esbravejar, sem lutar?

Por isso mesmo que foi perdoado por Deus pelos erros cometidos em nome de uma nobreza maior, que é lutar contra as injustiças. Ademais, está escrito em Hebreus 9.22: “conforme a lei, o sangue é utilizado, para quase todas as purificações, e sem efusão de sangue não há perdão”. Daí, padre, que se Lampião cometeu crime de sangue foi procurando purificar a região da crueldade dos verdadeiros bandidos. E há muito que foi perdoado. Argumentou a velha senhora.

E continuou dizendo que como a igreja havia reconhecido seus mártires e os tornado santos, bem assim ela reconhecia Lampião como um grande mártir do sertão. Lampião sofreu perseguições e tormentos até a morte; se sacrificou em nome daquilo que acreditava, que era ver sua terra sem tantas injustiças sociais; e não se desumanizou, pois morreu com Deus no coração.

E por último disse que como sua casa era sua igreja, daquele momento em diante já não era nem mais igreja, mas sim o Vaticano. E ela a sucessora de Pedro, e nesta condição acabava de promover aquela imagem de barro em santidade, em São Lampião. E se o padre estivesse achando ruim que botasse o pé adiante da porta.

Temeroso, o sacerdote deu a volta e saiu apavorado e sem direção. O pior não foi nem seu insucesso exorcizatório, mas sim o temor de que aquela conversa se alastrasse e parte do povo sertanejo chegasse ali em procissão buscando auxílio aos pés do santo bandoleiro.

Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE

Poeta e cronista

e-mail: rac3478@hotmail.com


Publicação autorizada através de e-mail de 30/06/2012

sábado, 9 de dezembro de 2017

VIAGEM LITERÁRIA/FOTOS SALINAS-MG


Amigos GANDAVOS, essa minha viagem, cujas fotos nosso editor vem postando, tem objetivo bem mais amplo que o turismo puro e simples. Trata-se, na verdade, de um roteiro literário pelos SERTÕES retratados nos livros "OS SERTÕES", de EUCLIDES DA CUNHA e "GRANDE SERTÃO: Veredas", de JOÃO GUIMARÃES ROSA. Livros bem diferentes um do outro, guardam apenas a similaridade do espaço geográfico de dois sertões deste Brasil, ambos bem diferentes um do outro. O sertão, pano de fundo da GUERRA DE CANUDOS, noticiada por CUNHA é seco, cinza e muito hostil aos seus viventes e, principalmente, aos forasteiros. O sertão rosiano, ao contrário, é verde, chuvoso, mesmo assim não entrega facilidades. Nos dois, os homens lutam a vida diária com todas suas dificuldades e filosofias. Há muito venho escrevinhando um texto de quinta categoria intitulado "OS JAGUNÇOS ESQUECIDOS DO LISO DO SUSSUARÃO", inspirado em GRANDE SERTÃO: Veredas. Espero que esta viagem possa resultar em ideias para concluí-lo. E, se assim for da vontade de Deus e superadas minhas limitações, me lançarei à empreitada de escrever sobre Canudos. Ou seja, ainda vou comer, literalmente, muita poeira. 











































De férias, viajar de carro é sempre uma ótima opção. Pensando assim o nosso querido amigo e parceiro nas publicações de livros da Coleção Gandavos, Augusto Sampaio Angelim, está a gozar da autonomia de seguir roteiro da forma que melhor lhe agrada: Viajar de carro.
Augusto nos enviou algumas fotos de Salinas/MG.
Salinas compõe com outros municípios da região o Alto Rio Pardo. O município é conhecido pela qualidade do requeijão e da carne de sol, pelas tradições, pelo folclore e pela produção agropecuária. Mas nada lhe dá mais notoriedade do que as suas famosas cachaças. Atualmente, o município é o mais importante polo nacional de produção de cachaça de alambique com mais de 50 marcas e produção anual que gira em torno de quatro milhões de litros.



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

UMA VIAGEM LITERÁRIA




Amigos GANDAVOS, essa minha viagem, cujas fotos nosso editor vem postando, tem objetivo bem mais amplo que o turismo puro e simples. Trata-se, na verdade, de um roteiro literário pelos SERTÕES retratados nos livros "OS SERTÕES", de EUCLIDES DA CUNHA e "GRANDE SERTÃO: Veredas", de JOÃO GUIMARÃES ROSA. Livros bem diferentes um do outro, guardam apenas a similaridade do espaço geográfico de dois sertões deste Brasil, ambos bem diferentes um do outro. O sertão, pano de fundo da GUERRA DE CANUDOS, noticiada por CUNHA é seco, cinza e muito hostil aos seus viventes e, principalmente, aos forasteiros. O sertão rosiano, ao contrário, é verde, chuvoso, mesmo assim não entrega facilidades. Nos dois, os homens lutam a vida diária com todas suas dificuldades e filosofias. Há muito venho escrevinhando um texto de quinta categoria intitulado "OS JAGUNÇOS ESQUECIDOS DO LISO DO SUSSUARÃO", inspirado em GRANDE SERTÃO: Veredas. Espero que esta viagem possa resultar em ideias para concluí-lo. E, se assim for da vontade de Deus e superadas minhas limitações, me lançarei à empreitada de escrever sobre Canudos. Ou seja, ainda vou comer, literalmente, muita poeira. 
































De férias, viajar de carro é sempre uma ótima opção. Pensando assim o nosso querido amigo Augusto Sampaio Angelim, está a gozar da autonomia de seguir roteiro da forma que melhor lhe agrada: Viajar de carro.  Ele já percorreu o espaço geográfico e cultural de Os Sertões, de Euclides da Cunha, e pretende ir a Salinas e também visitar a Chapada Gaúcha.  E por ser um Gandavos de carteirinha, vai deixando livros das nossas publicações durante o percurso. Acima, alguns momentos clicados pela câmera desse pernambucano cabra da peste?